Comunidades de Aprendizagem – Relatos de experiências

Autoria: Iungo | Data:

Bem-vindas e bem-vindos à nossa série de relatos de experiências em Comunidades de Aprendizagem, ação especial do mês dos professores no iungo. Ao longo das próximas semanas, receberemos por aqui professoras e professores de todo o Brasil, que compartilharão suas histórias para inspirar você, que nos lê, a trabalhar em união e sinergia com a sua comunidade profissional.

3.
Trabalhar em conjunto parece uma ideia tão simples, mas fez enorme diferença em nossa atuação como docentes e na formação dos alunos, na medida em que passamos todos a aprender, na prática, com a realidade das teorias abordadas em sala de aula.

Hoje trazemos mais um relato para você se inspirar ainda mais a trabalhar em colaboração com seus colegas da educação. A experiência  da vez, sobre comunidades de aprendizagem, é a de Saionara Almeida, professora de Língua Portuguesa e Literatura na Escola de Educação Básica Mater Dolorum, na cidade de Capinzal, Santa Catarina. 

Foi aos poucos que Saionara percebeu que fazia parte de uma comunidade de aprendizagem. Elas nos conta que, lentamente e com passos bem projetados, seu grupo de educadores foi conseguindo ultrapassar os muros da escola, envolvendo as famílias dos alunos, outros profissionais, ex-alunos e pessoas dispostas apoiar a escola. 

“Nosso grupo de professores sempre foi unido e atuante, mas ganhou força quando começamos a abrir nossas portas e mentes, criando situações para que a participação da população local na escola se ampliasse. E isso só foi possível graças a muito estudo e organização das ações. O maior desafio foi abrir este caminho de entrada de outros atores, além de nós, professores, e neles cativar o sentimento de pertencimento e responsabilidade com a educação, de mostrar para os alunos e para a população que tirar um tempinho para contribuir com o todo, fez e fará uma grande diferença para o futuro dos jovens. Mostrar que a escola é integrada à sociedade, não está apartada dela.”

Quando perguntamos sobre quantos colegas fazem parte desse grupo que se desenvolve e trabalha unido, Saionara nos responde seguramente que na instituição onde trabalha todos os professores, sem exceção, hoje são atuantes em diversos projetos que fortalecem e estimulam as trocas entre si e com os moradores da região. Após muitas pesquisas e envolvimento com as questões sociais do entorno da escola, inserindo essas questões no contexto das aulas, os educadores da Mater Dolorum entenderam que sua contribuição com a população não estaria no campo das doações materiais, mas na sensibilização dos jovens para as situações de fragilidade de outras pessoas. Entre esses projetos, a educadora destaca o “Ludilegria”, uma intervenção de professores e alunos que, vestidos de palhaços, visitam o hospital e um abrigo para menores da região, para levar informação e alegria a quem está nesses locais.

A educadora destaca que ampliar o acesso dos alunos à cultura também faz parte dos eixos de atuação de seu grupo de professores e que especialmente este aspecto traz muito sentido ao seu trabalho individual. Um exemplo que ela cita é a “Semana de Arte Moderna”, na qual toda a escola Mater Dolorum é envolvida. Nesse evento, professores e alunos, inspirados nos precursores do Modernismo, produzem arte de uma maneira viva, permeada por questões de seu tempo e sua realidade e, o principal, em colaboração. Com instalações, intervenções artísticas/literárias, peças de teatro, e exposições, a escola se transforma em um palco para o protagonismo de seus integrantes. Além disso, para expandir e fortalecer a comunidade, outras escolas são sempre convidadas a fazer parte do evento, que se desenvolve durante todo o semestre.

Em 2020, diante dos desafios impostos pelo afastamento social, Saionara e os colegas continuaram a apostar no trabalho coletivo:

“Neste momento de pandemia, não podíamos deixar as coisas pararem e as ideias deixarem de fluir. Temos uma biblioteca muito linda e uma bibliotecária muito atuante, recebemos vários livros novos; então, pensando em incentivar cada vez mais a leitura, criamos com um grupo de alunos, o Capinzal Book Club.”

Por meio das redes sociais, esse clube do livro leva as obras literárias para o público da escola, dá dicas de leitura, promove reuniões virtuais com a participação de pais, alunos, professores e convidados, que falam sobre o que leram, debatem e declamam textos. Foi criada também uma biblioteca virtual no drive, para que todos possam ter acesso às capas dos livros e reservá-los para, em um dia agendado e com todos os cuidados que o momento exige, buscarem as obras físicas. 

Outra ação do grupo foi transferir suas conversas periódicas sobre o mundo do trabalho para o meio digital. E, segundo nos relata a professora, isso se delineou de uma forma muito melhor do que pensavam.

“Com os encontros online, conseguimos trazer pessoas de outros países e uma diversidade muito maior para o nosso grupo de debate sobre carreira. Lembro-me de uma discussão com profissionais e ex-alunos, que durou duas noites e uma tarde, na qual conseguimos atingir nosso objetivo de mostrar aos estudantes inúmeras possibilidades profissionais”.

Para fortalecer essa interlocução entre todos os atores e a realização destas ações, a comunidade da escola conta também com um apoio externo que faz toda a diferença. As rádios locais, e até regionais, sempre divulgam as atividades e entrevistam os alunos, pais e professores acerca de tudo que tem sido realizado. 

Saionara finaliza seu depoimento compartilhando conosco outra prática muito relevante. Periodicamente o grupo avalia o seu trabalho e se apropria dos resultados para pautar decisões e novas ideias. Dessa maneira, é possível entenderem onde precisam melhorar e não deixar lacunas que possam enfraquecer a relação estabelecida. No que tange aos alunos, as mudanças são perceptíveis. A educadora nos diz que os alunos se sentem pertencentes à escola e conseguem atuar como cidadãos ativos no processo de construção de uma sociedade melhor, não mais se vendo apenas como expectadores. Os pais também passaram a ter os professores como parceiros, o que se reflete positivamente no acompanhamento e no rendimento escolar de seus filhos. A população da cidade hoje vê a escola com outros olhos e as pessoas se sentem mais confortáveis para auxiliar e incentivar a melhoria da educação.

“Para quem está começando a estruturar sua comunidade de aprendizagem, digo que o mais importante é estudar bastante e planejar. É preciso se preparar e não apenas fazer as coisas sem pensar. É necessário conhecer a situação da sua escola e mapear as melhores alternativas para atingir os objetivos, avaliando sempre o percurso. Tomar as iniciativas também é essencial, buscar as pessoas, estabelecer parcerias e nunca deixar as ideias perderem impacto”.

O relato da professora Saionara foi uma injeção de ânimo para nós aqui do iungo. Esperamos que você também tenha se entusiasmado a pensar em propostas colaborativas para o seu grupo profissional. E ainda não acabou, semana que vem traremos um novo depoimento. Até lá!


2.
“Como professores, juntos temos mais influência e resistência para buscar a valorização e reconhecimento.”

Nosso segundo relato sobre experiências inspiradoras em Comunidades de Aprendizagem está no ar! Hoje trazemos a história de Adeilza Ramos, da cidade de Belo Jardim em Pernambuco. Ela é técnica do programa Comunidade de Aprendizagem da Secretaria Municipal de Educação, atuando também em outros projetos, como o 5s – Programa de Qualidade Total nas Escolas. 

Dentre suas várias experiências no Comunidade de Aprendizagem, ela nos traz uma das que mais a envolveu. Adeilza nos conta que recebeu da gestora de uma das escolas da rede o convite para realizar um trabalho de integração com seu grupo de professores, que passava por um momento delicado no que diz respeito às relações interpessoais no ambiente profissional. Para tanto, resolveram adotar como estratégia a “Tertúlia Literária”.

“O que mais me agrada nessa prática é que ela promove o diálogo igualitário. Aproxima as pessoas sem distinção de idade, gênero, cultura, capacidade ou condição social. Todos têm o direito de ouvir e de ser ouvidos. Não existe certo nem errado quando se trata de um compartilhamento de experiências de vida, gerando uma troca enriquecedora na construção de conhecimentos. Por isso, a Tertúlia precisa ser feita com um clássico da Literatura, porque essas obras geralmente abordam as questões mais centrais da vida e comuns às pessoas.”

Para esse trabalho com os educadores da escola, foi adotado o conto de Machado de Assis “Um Apólogo”, que narra a discussão entre uma agulha e um novelo de linha acerca de quem seria mais importante no processo da costura. A agulha é a metáfora para uma pessoa desfavorecida pelas circunstâncias, que não se conforma com sua condição, culpando os outros e defendendo seus méritos supostamente não reconhecidos, se comparados aos da linha. Ela se julga e é julgada como mera “abridora de caminhos” para o trabalho realmente importante, o da linha. No fim, uma terceira personagem, um alfinete, a faz enxergar toda a situação por um outro ângulo, mostrando a importância do trabalho coletivo, da autovalorização, da empatia e da resiliência diante das mudanças e desafios. 

Nas palavras de Adeilza: “Temos que nos orgulhar de sermos agulhas, pois abrimos caminhos para que os alunos possam alcançar seus objetivos.”

O que mais impressionou a educadora foi como a Tertúlia conseguiu despertar o afeto, a emoção e os sentimentos que, devido à demanda de trabalho e os problemas pessoais de cada um, tinham se perdido ao longo do caminho. Segundo ela, foi muito rica a experiência dos educadores se verem como as personagens do conto, fazendo uma autocrítica e uma reflexão sobre suas relações uns com os outros e com os alunos. Adeilza finaliza nos contando que a Tertúlia concluiu-se com lágrimas, abraços e pedidos de desculpas. Os resultados foram visíveis na mudança de comportamento dos professores e, onde existiam problemas interpessoais, surgiram palavras e posturas que atestaram o efeito positivo do processo, que se tornou a base para a construção de um ambiente mais agradável para se trabalhar, favorecendo os alunos a aprenderem mais e melhor.

Um integrante do grupo afirmou que “Nenhum de nós é tão bom como todos nós juntos”. Outro trouxe, ainda, Paulo Freire: “Todos nós sabemos alguma coisa. Todos nós ignoramos alguma coisa. Por isso, aprendemos sempre”.  

E na sua escola, neste período tão desafiador que estamos vivendo, como estão as relações entre os profissionais? Você já considerou que este seja justamente o momento ideal para formar ou fortalecer a sua comunidade de aprendizagem? Conte-nos aqui nos comentários e não perca o relato da próxima semana.



1.
“Temos grandes desafios, mas sonhamos juntos e usamos sempre o lema: ninguém fica para trás!”

Lecionando há 11 anos, a Profa. Simone Machado atua há três anos em uma jovem escola, que existe há apenas quatro, a Escola de Ensino Médio Valmir Omarques Nunes, de Bom Retiro, Santa Catarina. Ela nos conta que lá, o seu sonho profissional, acalentado há muito tempo, tornou-se realidade. Hoje, a educadora tem o orgulho e o prazer de trabalhar em uma instituição que, em suas palavras, “é feita por todos e para todos”. 

“Temos um time de professores e gestores que trabalham juntos e planejam juntos, numa aprendizagem dialógica com atuações educativas de êxito, compartilhando boas práticas e auxiliando uns aos outros, sempre pensando no nosso estudante. Aos poucos, fomos construindo um ambiente em que está muito presente o diálogo igualitário, a solidariedade, o respeito às diferenças, a seleção de prioridades, um espaço em que todos são ouvidos e onde juntos buscamos as soluções.”

No período da pandemia, Simone e seus colegas perceberam o quanto esse lema precisou se fazer ainda mais presente, quando uniram forças com estudantes e suas famílias, para juntos manterem a qualidade do ensino e o objetivo de construir uma comunidade pautada nas competências do século XXI, visando o futuro de cada jovem.

A professora relata que o projeto de desenvolvimento de Comunidades de Aprendizagem, que abrange toda a região de Bom Retiro, tem na E.E.M. Valmir Omarques Nunes um de seus pilares. Com a inauguração em 2017, o gestor da escola, Fábio de Almeida, convidou alguns profissionais para formarem um time de referência pedagógica. Para o sucesso da comunidade, foi e é de fundamental importância a coordenação pedagógica, na medida em que faz acontecer o planejamento, essencial para desenvolver uma formação humana integral nas modalidades educação profissional, integral e regular. Atualmente, os planejamentos continuam a ocorrer em todas as modalidades pelos meios digitais. E Simone enxerga que, assim como o afastamento social trouxe novos e grandes desafios, também tem proporcionado uma rica troca de experiências no planejamento de atividades integradas, nas decisões sobre avaliação, nas conversas sobre os estudantes com dificuldades, enfim,  integrando a todos de uma maneira diferente, mas sem a perda do senso de comunidade.

No primeiro ano de atividades da instituição, a equipe pedagógica contava apenas com a coordenadora e o gestor. Pouco a pouco, o planejamento integrado passou a fazer parte do dia a dia, o que uniu o time de professores e trouxe a participação ativa das famílias e dos estudantes em todas as decisões, resultando no aceite de toda a comunidade escolar ao desafio para implantar em 2018 o ensino médio integral. Assim, o grupo  precisou ser reforçado e, ingressando nele, Simone passou a participar de formações para aperfeiçoar-se nos planejamentos em comum e por área de conhecimento, que visam fortalecer ainda mais o apoio mútuo entre os profissionais. Esse novo formato de trabalho na escola trouxe resultados:  os estudantes aprofundaram suas aprendizagens e até venceram concursos nacionais, estaduais e regionais, demonstrando na prática o quanto uma comunidade, onde todos ensinam e aprendem uns com os outros, reflete positivamente em todos os âmbitos da escola e faz a diferença nas vidas dos estudantes. 

Hoje, a equipe da Valmir Nunes conta com 45 professores, seis profissionais de serviços gerais e alimentação, três no núcleo pedagógico e um no administrativo, para atender a um universo de 290 estudantes nos períodos integral e noturno. Para auxiliar na condução da comunidade, os órgãos representativos também são essenciais – APP, Conselho Deliberativo Escolar e Grêmio Estudantil – e funcionam em uma gestão democrática. Destaca-se também o apoio essencial que a Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina nos dá, que possibilitou, por exemplo, a parceria com o Instituto iungo e o Instituto Ayrton Senna.

Para Simone, a comunidade de aprendizagem – que congrega a participação ativa dos estudantes, famílias, comunidade e dos profissionais – tornou o ambiente da escola mais atrativo, mais prazeroso, trazendo aos estudantes o que faz mais sentido para eles. Junto com tudo isso, o modelo ainda estimulou a reflexão e a evolução das práticas docentes, que se fazem necessárias para o bom desempenho das aulas e metodologias, visto que o professor precisa estar sempre se aperfeiçoando e isso é justamente o que a comunidade de aprendizagem propicia. Sua escola, como aponta a professora, “tem muros abaixados, que interligam conhecimento e prática, permitindo aos estudantes e profissionais desenvolverem as competências e habilidades essenciais no século XXI”.

A educadora  nos conta, ainda, que o planejamento integrado comum é uma das principais estratégias escolhidas por sua equipe para oportunizar a troca de experiências e ideias dentro da comunidade, já que propõe que os professores busquem conhecimento, aprendam e enfrentem novos desafios juntos. “Os desafios sempre existirão, novos professores chegam e é aí que está a nossa grande tarefa, que é acolher e auxiliar em sua adaptação e pertencimento ao objetivo da instituição e à sua metodologia. Os momentos de planejamento integrado facilitam isso, porque estamos sempre atentos às dúvidas e anseios trazidos e, juntos, vamos nos estruturando para uma prática cada vez melhor.”.

Por último, a professora aconselha:

“Para uma Comunidade de Aprendizagem se formar e dar certo, é essencial a abertura para o novo. Quando o profissional aceita fazer parte dela, precisa ter boa vontade para trabalhar em equipe, saber ouvir e querer ser ouvido, ter anseio de compartilhar e assumir responsabilidades. Assim, ele recebe melhor as mudanças essenciais trazidas pelo planejamento, desenvolve a humildade para reconhecer que todos estamos em constante processo de aprendizagem e temos a necessidade de compartilhar experiências uns com os outros. Essas posturas fazem com que todos cresçam juntos, permitem que exista amparo mútuo, cultivam a certeza de que não estão sozinhos, com uma gestão presente que nos apoia no que é necessário. E isso tudo só é possível porque o estudante é o centro do processo, sentir-se valorizado, incentivado, pertencente e acima de tudo, saber que tem o poder de contribuir em seu processo de ensino e aprendizagem, o que traduz uma formação humana integral de fato. O segredo é ter como foco o estudante e sua evolução socioemocional.”

Aqui no iungo, nos entusiasmamos ainda mais para colocar em prática tudo o que aprendemos com a história da Simone. E você, se inspirou? Teve boas ideias? Conte pra gente aqui nos comentários e compartilhe esse relato em seus grupos de profissionais. Até a semana que vem!

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