Aprender, ler, viver: algo que acontece junto

Maio, além de mês dos trabalhadores e das mães, também é mês da Literatura. Se pensarmos bem, as três coisas de alguma forma se unem, afinal, do amor ao entendimento do mundo, tudo se amplia e enriquece nas páginas de bons livros

No dia 1º de maio, além do Dia do Trabalho, celebrou-se o Dia da Literatura Brasileira, data que boa parte de nós brasileiros não conhece. Como leitora feliz que sou – me apresento assim, pois de fato, os livros dão leveza à minha vida – questionei o motivo e, inevitavelmente, minha memória e pensamentos me levaram a um lugar de forte ligação com os livros e a literatura: a escola. Eu devia estar no equivalente hoje ao segundo ano, quando retirei um livro da biblioteca onde estudava, que trazia um personagem, o Zé Tartaruga, talvez o primeiro personagem literário a me emocionar. Era um menino a quem os amigos ofendiam, ridicularizavam por se parecer com uma tartaruga – na opinião maldosa deles. Estudioso e determinado, o menino resistiu, contornou e não se deixou abater, alcançando vitórias até se tornar médico. Eu não sabia, mas aquele primeiro livro que lia sozinha, sem ter minha mãe me acompanhando e contando a história, falava sobre bullying, ao falar das ofensas dos colegas ao meu personagem tão admirado.

Anos depois, foi um livro sobre a chegada de uma família italiana a São Paulo, que com o encantamento próprio da literatura, me ensinou sobre como esses imigrantes chegaram ao Brasil. E assim, sigo até hoje, aprendendo sobre os processo de colonização, escravidão e luta do povo negro pela liberdade com uma das obras mais importantes da literatura brasileira, o livro Um defeito de cor, da mineira Ana Maria Gonçalves. 

E o que tudo isso nos ensina? Ler, aprender e compreender a vida é algo também facilitado pela literatura. Daí a importância do direito constitucional de que todas e todos tenham acesso à educação de qualidade, não só para aprender a ler o próprio nome e textos simples, o que acontece no início do processo de alfabetização, mas para apreciar a literatura em todas as suas expressões, da poesia ao texto em prosa, sobre os mais diversos temas que nos apresentam o mundo.

Porém, o nosso desafio como sociedade é grande. “Qual foi o texto ou livro mais longo que você leu durante o ano?” Ao responderem a essa pergunta, 66,3% dos alunos brasileiros de 15 e 16 anos, disseram que o mais extenso não passou de 10 páginas. A constatação está em uma análise dos microdados do exame internacional Pisa 2018 divulgada nesta quarta-feira (29) pelo Centro de Pesquisas em Educação, Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), em parceria com a plataforma de leitura Árvore.

Essa pesquisa nos revela que a maioria dos estudantes nas escolas brasileiras não descobrem um personagem inspirador, nem uma história incrível nas páginas de um livro até chegar ao Ensino Médio. A reversão desse quadro, como diria um provérbio africano, depende de uma aldeia inteira, ou seja, depende que familiares tenham prazer de ler para os pequenos, de que professores não apenas proponham leituras, mas convidem seus estudantes a lerem livros pelos quais eles mesmos já se encantaram na idade deles e de espaços de partilha de leitura na rotina das escolas, entre estudantes, do Infantil ao Ensino Médio. Da mesma forma, é preciso conversar com as crianças e adolescentes sobre seus gostos e preferências da atualidade, para poderem curtir com bons livros a fase dos dinossauros, dos heróis, dos bruxos ou das fadas e unicórnios, até chegar à ficção científica ou narrativas sofisticadas transformadas em séries, sobre temas complexos e necessários como sustentabilidade, racismo ou algoritmos.

A literatura é algo a ser vivido, mas também compartilhado, à noite, antes de dormir, na sala de aula ou em rodas de conversa e cafés com os amigos. Ler é viver. E vida é algo da qual não queremos perder nada. Ou queremos?

 

Alcielle é diretora de educação do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É doutora em Psicologia da Educação e mestre em Educação: Formação de Formadores.