Nossas meninas ainda sonham em ser professoras?

Neste mês das mulheres, diferentes temas e manifestações ganham visibilidade, entre eles, o sonho de ser professora. Em um país que enfrenta escassez de docentes, vale perguntar: o imaginário que construímos sobre a profissão incentiva ou afasta as novas gerações desse caminho?

*por Alcielle dos Santos, diretora de educação do Instituto iungo

O mês das mulheres, em especial, o Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 08 de março, é uma data histórica que tem origem na luta por direitos cidadãos e no mundo do trabalho.[1] Como sociedade, temos sido convocados a refletir não apenas sobre a luta por direitos, mas sobre algo ainda mais fundamental: o direito de existir e viver com liberdade. Embora esse seja um princípio que deveria valer para todos os seres humanos, a história mostra que são as mulheres que, repetidamente, precisam lutar para garanti-lo. No contexto da educação – nosso foco nesta coluna – os desafios também não são pequenos.

Além do desafio que nos é colocado, como famílias e escolas, de educarmos meninas para que reconheçam seus direitos e meninos para o respeito pleno e efetivo às meninas como categoria humana e social, é importante voltar o olhar para uma figura central nesse processo: a mulher professora. Ao escolher essa profissão, ela assume um papel essencial na formação das novas gerações e na construção de uma sociedade mais justa.

Por muitas décadas – e, para algumas pessoas, ainda hoje – ser professora foi entendido como um dom e não como uma escolha. Algo semelhante ao modo como, historicamente, se interpretou a maternidade: o destino natural das mulheres. Porém, ser professora, assim como ser mãe, precisa ser uma escolha, ou seja, algo desejado, planejado e que exige preparação, formação e condições adequadas para que a profissão seja exercida com dignidade e qualidade.

Dados da OCDE (TALIS) e do Instituto Semesp,[2] indicam queda no interesse dos jovens pela carreira docente e baixo prestígio social da profissão, ou seja, são pouquíssimos os que escolhem ser professores, dentre as muitas opções do mundo do trabalho. Embora a docência seja uma carreira aberta tanto a homens quanto a mulheres, é sobre as meninas que esta reflexão se aprofunda. Enquanto para os meninos, as cobranças profissionais de sucesso se colocam em relação ao reconhecimento e aos bons salários, para as meninas há a necessidade de se pensar uma carreira que será conciliada a outros sonhos: como ter família, gerar ou não filhos, cuidar de uma casa etc. Em tese, essas responsabilidades deveriam ser compartilhadas de forma igual entre homens e mulheres. Mas, na prática, sabemos que não é assim — e a realidade das jornadas de trabalho das professoras é uma evidência consistente dessa desigualdade. A docência no Brasil é, em grande medida, uma profissão exercida por mulheres. Segundo dados do Censo Escolar divulgados pelo INEP, 79% dos professores da Educação Básica são mulheres, percentual que ultrapassa 90% nos anos iniciais do Ensino Fundamental. São elas que, todos os dias, sustentam o funcionamento das escolas brasileiras, ensinando, acolhendo e ajudando a formar novas gerações.

Talvez por isso eu sinta que conversar com mulheres, mães, tias, avós, e também com meninas e jovens que hoje estão nas escolas ou nas universidades sobre as possibilidades e as belezas de ser professora, seja uma conversa necessária. Mais do que falar sobre uma escolha profissional, quero refletir sobre o sentido dessa profissão, seus desafios reais e também sobre a força transformadora que existe em decidir ensinar.

Ser professora é uma escolha, não é um dom espontâneo. Como qualquer carreira, ela precisa ser desejada, construída e aprendida. O momento em que essa escolha se dá pode variar:  para alguns, durante o Ensino Médio, para outros, mais adiante na vida.

Eu descobri que queria ser professora, quando era monitora de laboratório de informática e fui convidada a substituir uma colega que engravidou. Naquela época, eu cursava Administração de Empresas, tinha feito Ensino Médio técnico em computação e me imaginava trabalhando com tecnologia na capital, em alguma multinacional. Conforme as minhas aulas iam revelando tudo o que eu não sabia sobre ensinar, ia percebendo que, se quisesse continuar naquele caminho, precisaria me profissionalizar de verdade, ou seja, mudar de área. E, por mais estranho que parecesse, era exatamente isso que eu queria. Estranho, pois eu achava que em tecnologia, poderia ter um salário melhor e condições de trabalho bem mais amenas do que as de uma profissional que trabalha dois ou três períodos e ainda leva trabalho para casa. O que eu não sabia, era o que sei hoje: como professora, eu posso ter muitas e diferentes atuações e em todas elas, o meu trabalho pode me fazer feliz, ao mesmo tempo em que contribui para transformar muitas vidas.

Saltando muitos anos desde aquele momento em que descobri que o que eu gostava mesmo era ensinar e estar entre crianças e jovens, percorri um percurso de profissionalização em que me tornei pedagoga, professora, mestre e depois doutora. A professora que sou hoje olha para trás e agradece a escolha que fiz. Também aproveita esse espaço para convidar outras meninas, jovens e mulheres a também considerarem essa profissão. Hoje, posso dar aulas, atuar na gestão de escolas, redes de ensino, órgãos de apoio. Posso ser pesquisadora, palestrante e colunista, como aqui sou. A docência me permite muitas possibilidades de atuação, mas também, me exige muito: ser estudiosa, cultivar o hábito de ser uma boa leitora, acompanhar tudo o que se passa no mundo, trabalhar em equipe.

Ser professora segue sendo algo desafiador – e, nessa dimensão, é fundamental que cidades e estados, por meio dos seus governos, priorizem essa profissão tão essencial a toda a sociedade.

Ser professora também continua sendo desejo, alegria e realização de sonhos. É nessa dimensão que faço aqui um convite: que possamos conversar com meninas e jovens sobre as aprendizagens múltiplas, as aulas que emocionam e a possibilidade concreta de transformar vidas por meio da educação. Ser professora é uma escolha poderosa, intencional e profundamente profissional. E ser mulher e professora é participar da vida de muitas pessoas de forma intensa e significativa. Você já conversou com uma menina sobre essa possibilidade?

 

*Alcielle dos Santos é diretora de educação do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É doutora em Psicologia da Educação e mestre em Educação: Formação de Formadores. Este artigo foi publicado originalmente no portal da Itatiaia.

 

[1] O Dia Internacional das Mulheres, celebrado em 8 de março, tem origem nas mobilizações de trabalhadoras no início do século XX, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, que reivindicavam melhores condições de trabalho, redução da jornada e direito ao voto. A data foi proposta em 1910 pela ativista alemã Clara Zetkin. Ao longo do tempo, diferentes eventos e mobilizações foram associados ao 8 de março, que acabou se consolidando internacionalmente como um marco de reflexão sobre direitos das mulheres. Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou a data no calendário internacional.

[2] Dados da pesquisa TALIS, da Organisation for Economic Co-operation and Development (OCDE), e análises divulgadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) indicam queda no interesse dos jovens pela carreira docente e baixo prestígio social da profissão no Brasil. Ver: INEP. TALIS – Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/talis; e G1. Brasil pode enfrentar “apagão de professores” em 2040, diz pesquisa. Disponível em: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2022/09/29/brasil-pode-enfrentar-apagao-de-professores-em-2040-diz-pesquisa.ghtml. Acesso em: 17 mar. 2026.

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