Todo 13 de maio, dia da abolição da escravatura, faz o Brasil olhar para o passado e colocar o racismo no centro do debate público. Mas é preciso ir além da memória: a escola também precisa encarar o presente. Mais de um século após a abolição formal da escravidão, as desigualdades raciais continuam atravessando trajetórias, oportunidades e experiências de aprendizagem. A escola, como espaço de formação, tem um papel decisivo nesse enfrentamento. Para que isso aconteça, uma pergunta é fundamental:
É possível falar em desenvolvimento integral sem enfrentar o racismo?

A luta dos movimentos negros no Brasil levou a uma ressignificação do 13 de maio como uma data de denúncia, reflexão e enfrentamento, deslocando o foco da ideia de “abolição concluída” para o reconhecimento de que a liberdade, a equidade e o direito à educação de qualidade ainda precisam ser construídos cotidianamente, como destaca Geisieli de Oliveira, formadora referência em Educação para as Relações Étnico-Raciais do Instituto iungo:
“A abolição da escravidão no Brasil não foi acompanhada por políticas de inclusão, reparação ou garantia de direitos, e seus efeitos seguem atravessando profundamente a sociedade brasileira. Na educação, isso se manifesta nas desigualdades de acesso, permanência, reconhecimento e aprendizagem da população negra e indígena. Pensar uma educação comprometida com a formação integral exige reconhecer que o racismo não é um tema periférico, mas uma estrutura que impacta trajetórias, subjetividades e oportunidades dentro e fora da escola.”
Nesse cenário, pensar uma educação integral comprometida com equidade racial exige, necessariamente, pensar também em educação antirracista. É nessa direção que o Instituto iungo atua ao desenvolver formações e materiais pedagógicos que apoiam professores e redes de ensino na construção de experiências educativas mais equitativas, conectadas à realidade dos estudantes e aos desafios contemporâneos da nossa sociedade.
Por que a educação integral precisa ser antirracista
A educação integral entende que educar vai além dos conteúdos. É garantir o desenvolvimento dos alunos em todas as suas dimensões — intelectual, física, emocional, social e cultural — em um projeto coletivo que envolve escola, território e comunidade.
Como afirma a pedagoga e antropóloga, Nilma Lino Gomes, uma das referências dos cursos do iungo sobre o tema:
“Não há como pensar em um pleno desenvolvimento humano se as pessoas vivem sujeitas às mais diversas formas de preconceito, discriminação racial e racismo […] nós não somos sujeitos pela metade.”
A reflexão de Nilma Lino Gomes ajuda a compreender por que a educação antirracista precisa fazer parte das práticas pedagógicas e da formação de professores.
Ou seja: não existe educação integral sem educação antirracista.
O antirracismo nas dimensões da educação integral
Se a educação integral considera a pessoa em sua totalidade, então o enfrentamento ao racismo precisa estar presente em todas as dimensões do processo educativo. Essa visão fica evidente no documento Diretrizes de Educação Integral Antirracista para o Ensino Fundamental: uma contribuição da sociedade civil , que considera a equidade racial como base da educação integral. A publicação da Cidade Escola Aprendiz e da Roda Educativa e Ação Educativa, realizada com apoio da Porticus, parceira do Instituto iungo, reforça a importância de integrar o antirracismo às políticas, ao currículo e às práticas pedagógicas de forma transversal e permanente. O antirracismo não deve aparecer na escola como um tema isolado ou pontual. Ele precisa ser um princípio que reorganiza a escola, atravessando o currículo, as relações e as práticas pedagógicas do cotidiano. Isso implica olhar para o antirracismo não apenas como objetivo de aprendizagem, mas como prática que se expressa no corpo, nas relações, nas emoções e nos repertórios culturais mobilizados no cotidiano escolar. É a partir dessa perspectiva que podemos analisar, de forma mais concreta, como o antirracismo se materializa, ou não, nas diferentes dimensões da educação integral.
Dimensão física: o corpo também aprende
Trabalhar a dimensão física na educação integral não é apenas falar de movimento ou saúde. É reconhecer que o corpo também é um território de disputa simbólica. Nossas práticas valorizam a corporeidade negra como potência? Como lidamos com situações de racismo relacionadas a cabelo, cor da pele e traços? Há intervenção pedagógica clara diante dessas situações? O antirracismo, aqui, se expressa na capacidade da escola de proteger, afirmar e educar sobre corpos historicamente desvalorizados.
Dimensão social: Educação antirracista e convivência escolar
A educação integral valoriza a convivência, a cooperação e a participação. Mas o antirracismo está presente nessas relações? Ele é tratado como eixo estruturante das interações escolares? As relações dentro da escola também ensinam. Elas podem tanto reproduzir discriminações quanto fortalecer experiências mais respeitosas e inclusivas — e o professor tem um papel central em mediar isso no cotidiano.
Dimensão emocional: pertencimento e representatividade na escola
O desenvolvimento integral deve considerar o impacto das experiências educativas na subjetividade dos estudantes. Os estudantes negros se sentem reconhecidos e valorizados na escola? As práticas pedagógicas constroem autoestima ou reforçam silenciamentos? Estamos formando pessoas que rejeitam a discriminação ou que aprendem a conviver com ela? O antirracismo, nessa dimensão, está diretamente ligado à construção de pertencimento e reconhecimento.
Dimensão cultural: currículo escolar e educação antirracista
A educação integral reconhece a cultura como elemento estruturante da aprendizagem. Mas como a cultura afro-brasileira entra na escola? Ela aparece nos livros didáticos? Qu
ais referências culturais são apresentadas pelos professores? Quais práticas culturais são integradas ao cotidiano escolar? Aqui, o antirracismo se materializa na forma como o currículo reconhece, legitima e mobiliza diferentes conhecimentos e experiências culturais.
Formação docente para uma educação integral antirracista
Quando articulamos essas dimensões, fica evidente que o antirracismo não é periférico à educação integral. E é no cotidiano da sala de aula que essa perspectiva ganha forma, por meio do trabalho do professor.
É ele quem transforma princípios em planejamento, dimensões em experiência de aprendizagem, diretrizes em prática pedagógica concreta. O iungo atua na formação continuad
a, apoiando práticas pedagógicas comprometidas com a educação antirracista e a Educação para as Relações Étnico-Raciais.
Esse movimento se materializa, por exemplo, no curso Cartografias: Projetos de Vida e Educação para as Relações Étnico-Raciais, que trabalha essa perspectiva como letramento — apoiando professores a compreenderem como as questões raciais atravessam trajetórias, identidades e projetos de vida, e a traduzirem esse debate em práticas pedagógicas concretas, conectadas à realidade da escola.
Ao mesmo tempo, essa perspectiva ganha corpo, de forma transversal, em iniciativas como o programa Itinerários Amazônicos, em que a educação antirracista não aparece como um conteúdo isolado, mas integrada ao currículo, ao território e às experiências de aprendizagem nas escolas públicas da Amazônia Legal.
Educação antirracista na comunicação
Essa compreensão também orienta a forma como o iungo atua no campo da comunicação, entendida como parte da construção pedagógica. A campanha Consciente o Ano Inteiro traz esse posicionamento ao afirmar a Educação para as Relações Étnico-Raciais como base da prática e não como pauta restrita a datas específicas.
Ao longo do ano, a campanha articula referências, experiências docentes e conteúdos formativos, fortalecendo uma comunidade comprometida com a equidade racial na escola e ampliando a circulação de conteúdos e referências que impactam diretamente o fazer pedagógico .
Nesse sentido, a educação integral articulada à Educação antirracista não é apenas uma agenda pedagógica: é um projeto de transformação social. Porque enfrentar o racismo na educação não significa apenas revisar conteúdos. Significa transformar relações, práticas pedagógicas e experiências de aprendizagem dentro da escola — todos os dias.

