Por Alcielle dos Santos*
A escola brasileira é obrigatória para todas as crianças, mas nem todas as crianças cabem na escola que construímos.
A frase pode parecer dura, mas ajuda a revelar uma contradição persistente no país: enquanto avançamos no acesso à educação básica, ainda falhamos em garantir que ela faça sentido para todos os sujeitos que a habitam. Isso inclui, de forma muito evidente, as crianças indígenas.
Garantir uma escola indígena não é apenas construir um prédio. Envolve reconhecimento institucional, financiamento adequado e, sobretudo, respeito às formas próprias de educar de cada povo. Isso significa considerar línguas, saberes, modos de aprender, de viver e de se relacionar com o território. Sem esse cuidado, o que temos não é uma escola indígena, é apenas uma adaptação precária de um modelo que não foi pensado para essas realidades.
Mesmo fora dos territórios indígenas, o distanciamento permanece. Quando pensamos em escola, raramente pensamos nas infâncias indígenas. E isso também se reflete no cotidiano das salas de aula, onde a presença indígena costuma aparecer de forma pontual, muitas vezes limitada a datas comemorativas ou atividades superficiais.
Como é a escola das crianças indígenas? Como são suas aulas? Como brincam? Muitas vezes, essas perguntas poderiam ser respondidas com visitas a aldeias que ficam pouco distantes das escolas não indígenas. Imaginem que significativo seria, crianças indígenas e não indígenas poderem brincar juntas, partilhar brinquedos e alimentos de suas diferentes culturas. Em muitos territórios do Brasil, aldeias estão a poucos quilômetros de escolas não indígenas. Ainda assim, quase não há troca entre esses espaços. Imaginar crianças indígenas e não indígenas convivendo, brincando juntas, partilhando histórias, alimentos e modos de ver o mundo ainda é, na prática, uma exceção.
Tenho defendido que essa aproximação não só é possível, mas necessária. Há mais de dez anos, quando atuava como coordenadora pedagógica em uma escola da Baixada Santista, em São Paulo, organizei uma atividade de turismo de base comunitária em parceria com uma aldeia tupi da região. A experiência foi transformadora. Para as crianças, o aprendizado deixou de ser abstrato e passou a ser vivido. Para a escola, foi um convite a rever suas próprias certezas sobre o que é ensinar e aprender.
Se ir à aldeia não for uma possibilidade, é preciso cuidar para que as atividades de aprendizagem sobre cultura indígena não reproduzam estereótipos como fazer cocar para as crianças, afinal nem todas as etnias indígenas usam cocares e melhor que imitar uma prática, é conhecer de verdade, ou seja, vivenciar práticas. Mais do que reproduzir símbolos, o desafio é promover encontros com os conhecimentos indígenas. E isso pode ser feito de diferentes formas: por meio da literatura produzida por autores indígenas, de conteúdos compartilhados por criadores nas redes sociais, de pesquisas orientadas ou mesmo de conversas mediadas por tecnologia entre jovens indígenas e não indígenas.
Nesse sentido, a Lei 11.645/2008 é um marco importante. Ao tornar obrigatório o ensino da história e da cultura indígena nas escolas, ela não propõe apenas a inclusão de novos conteúdos no currículo. Ela exige uma mudança mais profunda: na forma como ensinamos história, cultura e identidade no Brasil.
Isso implica reconhecer que os povos indígenas não pertencem ao passado, mas são parte viva do presente. Antes da chegada dos europeus, a população indígena no território brasileiro ultrapassava 5 milhões de pessoas. Hoje, essa população reduzida a pouco mais de 1 milhão de pessoas, continua a produzir conhecimentos, tecnologias, modos de organização social e formas de relação com a natureza que são fundamentais para pensar o futuro.
São saberes que envolvem desde a construção de moradias até práticas de cuidado com o meio ambiente, passando por formas coletivas de organização da vida e por expressões culturais e espirituais que atravessam gerações. Ignorar essa riqueza é limitar o próprio potencial da educação.
A escola precisa olhar para isso com mais atenção.Mais do que ensinar sobre os povos indígenas, é hora de aprender com eles.
Porque, no fundo, aprender a escutar também é reconhecer.
Reconhecer que há muitas formas de aprender, de ensinar e de existir no mundo. Reconhecer que o Brasil não é um só, e nunca foi.
Quando a escola se abre para essa escuta, algo muda. O conhecimento ganha outros sentidos.
A aprendizagem ganha vida. E o país começa, de fato, a se enxergar.
Conhecer tudo isso é mais do que aprender conteúdos.
É se reconectar com as raízes que nos formam, com os saberes que resistem e com as histórias que ainda estão sendo contadas.
Conhecer tudo isso é orgulhar-se de nossas origens, é pertencer a um lugar comum e isso passa pela Educação.
*Alcielle é diretora de educação do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É doutora em Psicologia da Educação e mestre em Educação: Formação de Formadores.
Este artigo foi publicado originalmente no portal da Itatiaia