No percurso de uma educação comprometida com a equidade, construir um repertório sólido de referências é um passo fundamental no cotidiano escolar. É por isso que o curso Cartografias: projetos de vida e Educação para as Relações Étnico-Raciais, desenvolvido pelo iungo em parceria com a Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul, conta com referências que ajudam a compreender como diferentes trajetórias e produções intelectuais podem inspirar práticas pedagógicas mais inclusivas e conectadas à realidade dos estudantes brasileiros. .
A seguir, apresentamos 11 personalidades cujas obras ajudam a conectar memória, território e ancestralidade na sala de aula.
1. Abdias do Nascimento (1914 – 2011)

Foi um dos principais nomes do movimento negro brasileiro no século XX. Escritor, dramaturgo, artista plástico, professor universitário e político, dedicou sua trajetória à denúncia do racismo estrutural e à valorização das culturas africanas e afro-brasileiras. Entre suas iniciativas mais conhecidas está a criação do Teatro Experimental do Negro (TEN), em 1944, no Rio de Janeiro. O projeto buscava ampliar a participação de pessoas negras nos espaços artísticos do país e combater estereótipos presentes na produção cultural da época.
2. Angela Davis (1944 – )

Referência internacional na luta pelos direitos civis, pela igualdade racial e pelos direitos das mulheres, a filósofa e professora emérita da Universidade da Califórnia, Angela Davis, transcende gerações com sua análise sobre a articulação entre raça, gênero, desigualdade e transformação social. Ao longo de sua trajetória, Davis demonstrou como diferentes sistemas de opressão atuam de forma articulada. Suas análises sobre racismo, capitalismo, encarceramento em massa e desigualdade de gênero ajudaram a consolidar debates que hoje influenciam pesquisadores, movimentos sociais e educadores em diversos países.
3. Azoilda Loretto da Trindade (1957 – 2015)

A educadora e pesquisadora carioca Azoilda Loretto da Trindade teve papel fundamental na elaboração e difusão dos Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros. Esses valores ajudam a pensar práticas educativas mais coletivas e conectadas à ancestralidade. Sua proposta convida educadores a reconhecer saberes historicamente invisibilizados e a construir processos de ensino mais próximos da pluralidade cultural brasileira. Leia mais sobre os Valores Civilizatórios aqui.
4. Beatriz Nascimento (1942 – 1995)

Nascida em Aracaju (SE), Beatriz Nascimento dedicou grande parte de sua produção ao estudo das experiências da população negra brasileira. Historiadora, roteirista e poeta, suas pesquisas valorizam narrativas frequentemente silenciadas pela historiografia tradicional. Ela contribuiu para ampliar a compreensão sobre os processos de formação da sociedade brasileira e quanto à importância da memória na construção de identidades.
5. Bianca Santana (1984 – )

No livro Quando me descobri negra, a jornalista e escritora paulista Bianca Santana fala sobre os processos de construção da sua identidade racial. Sua escrita autobiográfica evidencia como o racismo se manifesta em situações cotidianas e ajuda a pensar como a escola pode acolher a autoestima de estudantes negros, a partir de estratégias que trabalhem também o pertencimento.

6. Daniel Munduruku (1964 – )

Escritor e professor paraense, Daniel Munduruku é uma das vozes mais importantes da literatura indígena contemporânea. É diretor do Instituto Uk’a – Casa dos Saberes Ancestrais e sua produção aprofunda o olhar sobre território, identidade e modos de viver e aprender. Busca mostrar que existem outras pedagogias, baseadas na escuta da natureza e na oralidade, que desafiam o modelo único de escola. Para os professores, seus livros são ferramentas importantes para descolonizar o currículo e apresentar aos estudantes outras perspectivas de conhecimento.
7. Eloy Terena (1988 – )

Entre as referências contemporâneas apresentadas pelo curso está o mato-grossense Eloy Terena, advogado e liderança indígena reconhecido por sua atuação na defesa dos direitos dos povos originários. Atual ministro dos Povos Indígenas, sua atuação evidencia a importância da representatividade e do protagonismo indígena na formulação de políticas públicas e na defesa dos direitos territoriais.
8. Kaká Werá (1964 – )

Líder dos Kwaray, na região de Parelheiros (SP), o escritor Kaká Werá, do povo Tapuia, é referência quando se trata de espiritualidade e ecologia dos saberes. Sua obra aborda a relação entre o humano e a natureza como um aprendizado contínuo de pertencimento. Em livros como A Terra dos Mil Povos, convida os educadores a pensar projetos de vida como uma caminhada coletiva e conectada ao território e à comunidade.
9. Kimberlé Crenshaw (1959 – )

Jurista e professora, a estadunidense Kimberlé Crenshaw é mundialmente conhecida por desenvolver o conceito de interseccionalidade, um dos mais influentes nos estudos contemporâneos sobre desigualdade. A proposta da pesquisadora parte da compreensão de que diferentes marcadores sociais — como raça, gênero, classe e deficiência — não atuam isoladamente. Eles se cruzam e produzem experiências específicas de exclusão ou privilégio. Na educação, essa perspectiva contribui para a construção de práticas mais sensíveis às múltiplas realidades vividas pelos estudantes, favorecendo abordagens que considerem a diversidade em toda a sua complexidade.
10. Lélia Gonzalez (1935 – 1994)

Antropóloga, filósofa e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU), a intelectual mineira foi pioneira ao criar o conceito de “amefricanidade” – uma categoria que pensa a diáspora negra e as conexões culturais entre América, África e Caribe. Lélia destacou a importância das contribuições africanas para a formação da sociedade brasileira e latino-americana. Em seus estudos, propôs novas formas de compreender a cultura nacional, evidenciando a presença e a influência histórica dos povos africanos e afrodescendentes.
11. Sueli Carneiro (1950 – )

Nascida em São Paulo (SP), a filósofa e fundadora do Instituto Geledés, Sueli Carneiro, é uma das maiores intelectuais do feminismo negro brasileiro. Sua produção fortalece os debates sobre equidade racial, educação e os direitos das mulheres negras. Um dos conceitos-chave de sua obra é o “enegrecimento do pensamento feminista”, que critica o universalismo branco. Na prática escolar, suas ideias orientam a construção de currículos que não apenas incluam, mas centralizem a experiência de mulheres negras como produtoras legítimas de conhecimento.
Por que conhecer essas referências importa para o planejamento de suas aulas?
Conhecer os estudos e trajetórias destas personalidades convida professores a acessarem instrumentos concretos para elaborar atividades e projetos pedagógicos. A proposta da formação Cartografias: projetos de vida e Educação para as Relações Étnico-Raciais é justamente fazer a ponte entre teoria e a sala de aula. Como falar de interseccionalidade com adolescentes? Como levar os Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros para o ensino da matemática ou da geografia?
Essas e outras reflexões estão disponíveis de forma gratuita, on-line e autoformativa ao longo do curso. A formação apoia educadores da Educação Básica que desejam fazer da Educação para as Relações Étnico-Raciais um pilar fundamental do seu trabalho.
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