A escola fora da escola

Saídas pedagógicas ampliam repertórios e aprendizagens quando conectam o que os estudantes vivem fora da escola ao trabalho que continua em sala de aula.

*Por Alcielle dos Santos

 

Lembro de todas as vezes em que fui à escola e não fiquei na escola: a entrevista que fui fazer com comerciantes do bairro para pesquisa de Matemática e os jogos abertos que agitaram minha cidade — e para os quais ensaiamos o hino da escola, assim como pesquisamos as modalidades da competição —  voltam à minha memória com riqueza de detalhes.

Anos depois, como coordenadora pedagógica de Ensino Médio, adorava organizar estudos do meio, como chamávamos as saídas com finalidade pedagógica. Conheci muitos dos museus e salas de espetáculo da capital do meu estado, acompanhada de estudantes da minha escola. A cada uma dessas expedições para conhecer lugares, histórias e arte, eu ia somando um repertório e descobria novas relações entre aqueles espaços e os conteúdos estudados pelas turmas. Também, aprendia junto com os professores que planejavam as saídas e acompanhavam o alunos junto comigo a pensar, uma sequência de aprendizagem  que começava antes da saída e finalizava com sistematizações para que cada criança ou adolescente, pudesse memorizar conceitos aprendidos na prática, relacionando com os contextos observados, além de conversar com seus professores e amigos, sobre sentimentos, atitudes, mudanças de pensamento após a experiência vivida.

Lembro especialmente de um dos estudos do meio que me deu muito trabalho para organizar, mas que foi extremamente rico. Visitamos uma aldeia indígena com o apoio de profissionais da FUNAI e da equipe de assistência técnica agropecuária que atuava naquela comunidade, representando a Secretaria de Agricultura. Juntos, em conversa com o líder da aldeia, elaboramos um roteiro que incluía caminhada, lanche comunitário, apresentação de dança e uma partida de futebol entre estudantes da escola e adolescentes da aldeia.

Quando voltamos, a turma do Ensino Médio visitou uma turma da Educação Infantil para levar as respostas a perguntas que eles encomendaram para os colegas fazerem na aldeia. As perguntas das crianças pequenas eram tão importantes quanto aquelas que os adolescentes do Médio levantaram antes de debate na aula de Sociologia. Foi um estudo do meio muito elaborado, planejado, que envolveu vários professores e que pudemos contar para os pais na reunião de final de semestre.

Hoje, entendo que, seja em uma saída para entrevistar comerciantes do bairro, como fiz quando era estudante, seja em um estudo do meio com tantas etapas, como o que organizei ao lado de outros professores, sair da escola pode enriquecer profundamente a experiência de estar na escola. Isso não acontece apenas porque mudamos de lugar. A potência dessas experiências está na intencionalidade pedagógica: nas perguntas que levamos, nas relações que estabelecemos e no que fazemos com aquilo que vimos, ouvimos e vivemos quando retornamos.

Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará ajuda a compreender a potência dessas experiências. Ao analisar diferentes abordagens sobre as atividades realizadas fora da escola, o estudo mostra que sua força pedagógica está na interação entre professores, estudantes e o lugar conhecido. Também destaca a importância do retorno à sala de aula, quando conversas, registros e reflexões permitem retomar o que foi vivido e ampliar as aprendizagens. Assim, a experiência fora da escola não termina quando a turma volta. É na articulação entre o que foi vivido e o trabalho que continua em sala de aula que ela ganha sentido pedagógico.

Neste ponto, é fundamental explicar que as aprendizagens que se dão em experiências como essas, somam diferentes tipos de conteúdos: aqueles que são fatos históricos – o que aconteceu em um lugar em um tempo; conceituais – como o que é uma república, por exemplo, algo essencial para poderem compreender o que foi a proclamação da república ao conhecerem em um museu um quadro que retrata este momento histórico. Além desses tipos de conteúdos que sempre estiveram na escola, as atitudes de investigar algo em uma saída de campo e os procedimentos que os estudantes adotam para isso também são conteúdos previstos na Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Em sala de aula, por todo o tempo, tendo que imaginar a realidade, sem nunca sair para vê-la, seja no bairro, na cidade ou em outro lugar vizinho, os alunos perdem a possibilidade de aplicar o que estudam para resolver problemas. Basta pensar que boas aulas frequentemente recorrem a fotografias, vídeos, textos literários, mapas e obras de arte para trazer até a sala parte da realidade que se deseja conhecer.  Planejar saídas com os estudantes é inverter esta ordem: ao invés de pesquisarmos elementos que tragam a realidade, é possível levar meninos e meninas para os lugares onde ela acontece. Planejar uma saída pedagógica não precisa ser uma tarefa solitária. A participação de professores, coordenação pedagógica e estudantes amplia os olhares sobre objetivos, percursos e aprendizagens possíveis. Para apoiar esse processo, o texto do professor Fabricio Cruz reúne etapas e boas questões para orientar saídas pedagógicas e estudos do meio.

Talvez seja por isso que ainda me lembro tão bem das vezes em que fui à escola e não fiquei na escola. Saímos para conhecer outros lugares, mas voltamos também olhando de outro modo para aquilo que estudávamos, para as pessoas com quem convivíamos e para a própria escola.

Este artigo foi publicado originalmente no portal da Itatiaia

Acielle é diretora de educação do Instituto iungo, organização sem fins lucrativos que tem o propósito de transformar, com os professores, a educação no Brasil. É doutora em Psicologia da Educação e mestre em Educação: Formação de Formadores.

 

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