Mulheres negras latino-americanas e caribenhas: referências para fortalecer a educação antirracista

Conheça pesquisadoras, escritoras e educadoras da América Latina e do Caribe cujas trajetórias inspiram práticas voltadas à educação para as relações étnico-raciais.

O Dia Internacional das Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, celebrado em 25 de julho, convida educadores a reconhecer trajetórias que marcaram a produção de conhecimento, a pesquisa, a literatura e a formação de professores em diferentes países da região. A data também coincide, no Brasil, com o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. Ela foi uma expressiva líder do Quilombo do Quariterê, próximo a atual cidade de Cuiabá, capital de Mato Grosso, entre 1750 e 1770. Em sua liderança, a comunidade resistiu à escravidão por duas décadas. Nomes como o de Tereza reforçam a importância de conhecer mulheres que contribuíram e continuam contribuindo para a sociedade, inclusive, para uma educação comprometida com as relações étnico-raciais.

Pensando nisso, selecionamos algumas referências marcantes para países da América Latina e Caribe, cujas trajetórias podem inspirar práticas pedagógicas, ampliar repertórios e fortalecer a educação para as relações étnico-raciais nas escolas durante todo o ano. Veja a seguir.

Brasil

Rosy Mary dos Santos Isaias (1965-)

Foto: UFMG

Rosy Mary dos Santos Isaias é professora do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e uma das principais pesquisadoras brasileiras na área da Botânica. Foi a primeira mulher negra a alcançar o nível mais elevado da carreira de pesquisadora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), reconhecimento concedido a profissionais com ampla contribuição para a produção científica no país.

Sua trajetória amplia as referências para meninas e jovens negras interessadas pela ciência e mostra a importância da representatividade na produção do conhecimento. 

 

Sandra Petit (1959–)

Foto: Unilab

Professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Sandra Petit desenvolve pesquisas voltadas às relações étnico-raciais e aos saberes afro-brasileiros e africanos na educação.

Entre suas principais contribuições está a Pretagogia, proposta pedagógica construída a partir de conhecimentos produzidos por povos africanos e afro-brasileiros. A abordagem valoriza a ancestralidade, oralidade, memória e pertencimento como elementos constitutivos dos processos educativos. Suas contribuições inspiram práticas pedagógicas comprometidas com a valorização dos saberes afro-brasileiros.

 

Ana Célia da Silva (1948–)

Foto: Odara – Instituto da Mulher Negra

Pedagoga, professora e pesquisadora, Ana Célia da Silva é uma das principais referências brasileiras nos estudos sobre educação para as relações étnico-raciais.

Pioneira na análise da representação da população negra nos livros didáticos, suas pesquisas evidenciaram como estereótipos, ausências e formas de representação presentes nesses materiais interferem na construção das identidades e na reprodução do racismo. Esses estudos seguem sendo referência para professores que desejam construir práticas de educação antirracista e analisar criticamente materiais didáticos. 

 

 

Colômbia

A produção intelectual negra também transforma a educação em outros países da América Latina. Conheça algumas referências colombianas.

Mara Viveros Vigoya (1656-)

Foto: University of Cambridge

Socióloga, antropóloga e professora da Universidade Nacional da Colômbia, Mara Viveros Vigoya é cofundadora da Escola de Estudos de Gênero da instituição e uma das principais pesquisadoras latino-americanas nos estudos sobre raça, gênero e masculinidades.

Sua produção acadêmica analisa como desigualdades de raça, gênero, classe e sexualidade atravessam a sociedade latino-americana, oferecendo importantes contribuições para a compreensão das relações étnico-raciais no contexto educacional.

Delia Zapata Olivella (1926–2001)

Foto: Manuel Zapata Olivella Collections

Pesquisadora, professora e coreógrafa, Delia Zapata Olivella se dedicou ao estudo, à preservação e à difusão das manifestações culturais afro-colombianas das regiões do Pacífico e do Caribe.

Seu trabalho reuniu pesquisa, ensino e produção artística para registrar tradições que, durante muito tempo, permaneceram à margem dos espaços acadêmicos. Ao documentar danças, músicas e expressões culturais, auxiliou para que esses saberes fossem reconhecidos como parte do patrimônio cultural colombiano.

 

 

Mary Grueso Romero (1947–)

Foto: Universidad del Valle

Mary Grueso Romero é professora, escritora e poeta afro-colombiana, e construiu uma trajetória marcada pela valorização da identidade negra por meio da literatura.

Suas obras são amplamente utilizadas em escolas colombianas, especialmente em atividades de alfabetização, literatura infantil e valorização da cultura afro-colombiana. Ao abordar temas como memória, pertencimento e ancestralidade, sua produção contribui para que crianças e jovens encontrem, na literatura, diferentes formas de representação e reconhecimento.

 

Costa Rica

Na Costa Rica, diferentes pesquisadoras e escritoras contribuem para valorizar identidades negras, memória e educação intercultural.

Eulalia Bernard Little (1935–2021)

Foto: Universidad de Costa Rica

A escritora e professora Eulalia Bernard Little foi a primeira mulher afro-costa-riquenha a publicar uma obra literária em seu país. Ao longo de sua vida, estudou a preservação da memória, da cultura e das tradições negras da região de Limón.

A pesquisadora também foi fundadora da Cátedra de Estudos da Cultura Afro-Americana da Universidade da Costa Rica, lecionou literatura afro-caribenha em universidades dos Estados Unidos e do Canadá, além de atuar como adida cultural na Jamaica e pesquisadora das Nações Unidas. Escrevendo em espanhol, inglês e mekatelyu, o crioulo limonense, sua obra evidencia a diversidade linguística e cultural da diáspora africana no Caribe e permanece como referência para estudos sobre identidade, patrimônio cultural e educação intercultural.

Shirley Campbell Barr (1965–)

Foto: Universidad de Guadalajara

Shirley Campbell Barr, professora, escritora e poeta, é uma das principais referências do feminismo negro na América Latina. Em sua produção acadêmica são comuns temas como identidade, ancestralidade, racismo e direitos das mulheres negras. Entre suas obras mais conhecidas está o poema “Rotundamente Negra”, traduzido para diferentes idiomas e utilizado em escolas e universidades para discutir pertencimento, autoestima e identidade racial.

 

 

 

Cuba

Em Cuba, intelectuais negras têm produzido pesquisas e obras que abordam ancestralidade, identidade, gênero e cultura afro-cubana.

María Ileana Faguaga Iglesias (1963-)

Foto: Victor Moriyama / UNICAMP

Historiadora, antropóloga e professora da Universidade de Havana, María Ileana Faguaga Iglesias é uma das principais pesquisadoras cubanas dedicadas aos estudos sobre mulheres afro-cubanas, relações de gênero, saúde e religiões de matriz africana.

Sua produção acadêmica reúne diferentes áreas do conhecimento para compreender as experiências da população negra em Cuba, contribuindo para debates sobre diversidade, direitos e produção de conhecimento.

 

 

Teresa Cárdenas (1970-)

Foto: Universidade Federal de Santa Catarina

Teresa Cárdenas, escritora, contadora de histórias e atriz, é uma das vozes mais reconhecidas da literatura afro-cubana contemporânea. 

Suas obras abordam temas como ancestralidade, memória, identidade e pertencimento, aproximando leitores de diferentes idades das vivências da população negra cubana. Traduzidos para diversos idiomas, seus livros são utilizados em projetos de leitura e em propostas pedagógicas que articulam literatura, cultura e educação.

 

 

Inés María Martiatu Terry (1942–2013)

Foto: AfroCubaWeb

A crítica literária, ensaísta, pesquisadora e professora, Inés María Martiatu Terry é considerada uma das maiores intelectuais afro-cubanas. 

Sua trajetória reúne estudos sobre literatura, cultura afro-cubana e relações de gênero, além de contribuições para a revisão de currículos e para a produção de materiais voltados à história e à cultura negra. Seu trabalho também é amplamente citado em pesquisas sobre educação intercultural e formação universitária.

 

 

México

No México, pesquisadoras têm contribuído para o debate sobre raça na América Latina. Conheça uma delas:

Mónica Moreno Figueroa (1971-)

Foto: University of Cambridge

Nascida em Guadalajara, Mônica Moreno Figueroa, é professora no Departamento de Sociologia da Universidade de Cambridge e professora de Ciências Sociais no Downing College, Cambridge, na Inglaterra. Em suas pesquisas, se dedica ao estudo do racismo, da branquitude e das desigualdades raciais no contexto latino-americano.

Sua produção tem influenciado debates acadêmicos sobre currículo, relações étnico-raciais e formação docente para compreender como o racismo se manifesta em diferentes instituições e práticas sociais.

República Dominicana

Na República Dominicana, diferentes mulheres articulam educação, cultura e pensamento decolonial em suas produções sobre raça, gênero e desigualdades. 

Chiqui Vicioso (1948-)

Foto: Brooklyn College

Luisa Angélica Sherezada Vicioso, mais conhecida como Chiqui Vicioso, é poeta, dramaturga, ensaísta e socióloga. Com formação em Desenho de Programas Educativos pela Universidade Columbia e influência da pedagogia de Paulo Freire, dedicou-se à educação popular e ao resgate da produção intelectual de mulheres historicamente invisibilizadas. Sua atuação evidencia a importância da literatura e da educação como espaços de reconhecimento de diferentes vozes e experiências.

 

 

Ochy Curiel (1963–)

Foto: Universidad Diego Portales

Antropóloga, professora, cantora e intelectual afro-dominicana, Ochy Curiel é uma das principais referências do feminismo decolonial latino-americano.

Suas pesquisas analisam as relações entre raça, gênero, sexualidade e colonialidade, propondo uma leitura crítica das desigualdades que atravessam a sociedade e os sistemas educacionais.

 

 

 

 

Yuderkys Espinosa Miñoso (1967–)

Foto: Bira Soares / UFRJ

Yuderkys Espinosa Miñoso, filósofa e pesquisadora, é reconhecida por sua contribuição aos estudos decoloniais e às epistemologias negras latino-americanas.

Sua obra dialoga com temas como formação docente, currículo e produção de conhecimento, questionando perspectivas tradicionais e propondo novos referenciais para compreender a história e as experiências dos povos latino-americanos.

 

 

 

Quantas dessas mulheres já fazem parte das suas aulas, dos seus planejamentos ou das referências que você compartilha com os estudantes? 

Conhecer essas pesquisadoras e suas obras também significa levar para a escola referências que dialogam com a educação para as relações étnico-raciais. Afinal, seus estudos e produções contribuem para apresentar aos estudantes diferentes perspectivas sobre a história e a cultura latino-americanas e caribenhas. Portanto, quando essas vozes passam a integrar o currículo, os estudantes encontram novas possibilidades de identificação, pertencimento e aprendizagem.

O Dia Internacional das Mulheres Negras Latinos-Americanas e Caribenhas é uma oportunidade para tornar essas contribuições mais presentes no cotidiano escolar. E para isso, é fundamental inserir autoras, pesquisadoras e educadoras negras latino-americanas e caribenhas nas práticas pedagógicas para a construção de uma educação comprometida com o respeito à diversidade e com as relações étnico-raciais durante todo o ano.

Veja outras referências brasileiras aqui.

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