Quem forma quem ensina? A importância das referências negras na formação de professores

Fortalecer professores também significa ampliar seus repertórios. Entenda por que as referências negras são essenciais para uma educação pública mais plural e significativa.

Quase todo mundo consegue se lembrar de um professor que mudou sua forma de ver o mundo. Pode ser por uma frase dita no momento certo. Ou por um incentivo inesperado, uma aula inesquecível ou alguém que fez você acreditar que era possível ir mais longe. São encontros que permanecem na memória muito depois da Educação Básica terminar.

Mas todo professor também foi aluno de alguém e ele segue aprendendo ao longo da sua carreira. Foi formado por outras professoras e professores, livros, pesquisas, experiências e ideias também ajudaram a formar sua maneira de compreender a educação. É nesse percurso que nasce uma pergunta importante: quem são as referências negras que formam quem ensina?

Referências negras na educação: da presença ao reconhecimento

Durante muito tempo, intelectuais, pesquisadores e educadores negros tiveram presença limitada nas bibliografias, currículos e nas narrativas que estruturam o ensino. Muitos estudantes também atravessaram a Educação Básica sem ter professores negros na sua trajetória escolar. Embora esse cenário ainda esteja longe do ideal, ele começa a mudar. Em 2024, 52,9% dos estudantes matriculados na graduação em Pedagogia, eram compostos  por pessoas pretas e pardas. Impulsionadas por políticas como a Lei de Cotas, novas gerações de educadores negros passaram a ocupar universidades, grupos de pesquisa e outros espaços de formação docente.

Ainda assim, o dado mostra um avanço importante na presença de estudantes negros na formação inicial docente, mas também reforça um desafio. A presença de professores negros nas escolas precisa caminhar ao lado de suas ideias, pesquisas e produções. Elas também precisam ocupar currículos, bibliografias e as referências que formam quem ensina. Afinal, fortalecer a educação pública também significa ampliar os repertórios que orientam a formação dos professores na direção da equidade.

Referências negras ampliam possibilidades de aprender

Toda escolha pedagógica comunica uma mensagem. Os autores que aparecem nas bibliografias, os exemplos usados em sala de aula e as histórias que ganham espaço na escola ajudam a definir quais conhecimentos são valorizados e quem é reconhecido como seu produtor. Quando esse repertório se torna mais diverso, professores e estudantes entram em contato com diferentes formas de compreender a realidade brasileira. Com isso, os processos de ensino e aprendizagem também se enriquecem.

Esse movimento produz efeitos que vão além da sala de aula. Para estudantes negros, encontrar professores, pesquisadores e intelectuais negros entre as referências da educação fortalece o sentimento de pertencimento e amplia as possibilidades de futuro. Para todos os estudantes, significa reconhecer que a produção do conhecimento brasileiro é plural. Além disso, diferentes perspectivas ajudam a compreender a sociedade em que vivemos.

Pesquisas recentes demonstraram que a presença de professores interfere positivamente na trajetória de alunos negros.

A presença de professores negros faz diferença

Pesquisas mostram que estudantes negros que têm pelo menos um professor negro:

  • têm maiores chances de concluir o ensino médio;
  • são mais propensos a ingressar no ensino superior;
  • apresentam melhores perspectivas educacionais e profissionais ao longo da vida.

Fonte: Observatório de Educação – Instituto Unibanco, com base em pesquisas internacionais sobre expectativas docentes e diversidade na educação.

Por isso, incorporar referências negras à formação docente não significa substituir um conjunto de autores por outro. Significa ampliar o repertório de quem ensina. Assim, professores encontram novas perspectivas para compreender os desafios da escola pública e construir práticas que favoreçam a aprendizagem de todos.

Os repertórios que escolhemos ouvir 

Ser professor é exercer uma profissão que exige aprendizagem permanente. A prática em sala de aula, o planejamento das aulas, a troca com colegas, a escuta dos estudantes e o contato com novas pesquisas transformam continuamente a forma de ensinar. É esse espaço privilegiado de desenvolvimento profissional que precisa ser garantido, valorizado e cuidado para que possamos fortalecer a educação pública de forma permanente.  Através da educação continuada, o Instituto iungo escolhe caminhar ao lado dos educadores, criando oportunidades para ampliar repertórios, fortalecer práticas e construir, juntos, novos caminhos para a educação pública. 

Para nós, a Educação para as Relações Étnico-Raciais é um eixo estruturante da prática pedagógica e não mais uma temática. Isso exige um posicionamento institucional da escola e das redes de ensino em favor de uma educação antirracista. Também requer condições para que educadores ampliem repertórios, reflitam sobre suas práticas e construam estratégias que valorizem a diversidade presente nas escolas brasileiras. É um compromisso que atravessa diferentes frentes do trabalho do iungo. Na formação continuada, iniciativas como o Cartografias: Projetos de Vida e Educação para as Relações Étnico-Raciais colocam essas reflexões em diálogo com a prática docente. Nas rede sociais, o iungo mantém a campanha Consciente o Ano Inteiro, com periodicidade mensal. Por meio dos conteúdos, busca ampliar o reconhecimento de intelectuais e educadores negros, bem como de pesquisas e relatos de práticas pedagógicas que consideram a perspectiva da Educação para as relações étnico-raciais no dia a dia da escola.

As referências que também formam o iungo 

Esse compromisso também se reflete nas pessoas que fazem o iungo. Nossa equipe reúne profissionais com diferentes trajetórias, experiências e áreas de atuação, unidos pela convicção de que uma educação mais plural começa pelos repertórios que escolhemos cultivar. 

Por isso, convidamos integrantes da equipe do iungo a responder uma pergunta simples: quais referências negras ajudaram a formar a educadora ou o educador que você é hoje?

 

Tenho uma memória, um encontro e uma grande referência que sempre sigo ao planejar. Minha memória é da minha única professora negra, Dulcinéia, que conheci no 3º ano. O encontro que transformou minha trajetória aconteceu quando eu já era professora e fui formada por Alexandra, uma mulher negra, sabida e afetuosa, que hoje tenho orgulho de chamar de amiga. A partir daí, bell hooks se tornou minha grande inspiração: por identidade de propósito, por ser professora, pesquisadora e escritora, por seguir a pedagogia de Paulo Freire e fazer a ciência avançar com pertencimento e propósito, considerando as identidades das pessoas e dos territórios.” Alcielle Santos, diretora de Educação do iungo 

A professora Silvani dos Santos Valentim foi a primeira pessoa a acreditar nos meus estudos sobre ciência, tecnologia africana e afro-brasileira. Ela faz parte da velha guarda do movimento negro educador e abriu portas para muitas pessoas negras. Foi também a primeira mulher negra brasileira a defender um doutorado nos Estados Unidos. Sua trajetória acadêmica e sua atuação nas redes de mulheres negras me mostraram que produzir conhecimento a partir das nossas experiências também é um caminho possível. Ela marcou minha trajetória e segue sendo uma referência que inspira minha forma de pensar e fazer educação todos os dias.” Geisieli de Oliveira, formadora e referência em Educação para as Relações Étnico-Raciais do iungo 

“Entre tantas possibilidades, acho que a intelectual que mais me inspira, que é uma grande referência para mim como professora, é Lélia Gonzalez. Ela tem uma discussão que, como educadora, me atravessa muito: olhar para uma prática antirracista e de combate ao preconceito e compreender o racismo como uma questão estrutural. A Lélia foi uma das pioneiras nas discussões sobre interseccionalidade, fazendo a gente pensar as relações entre raça, classe e gênero — uma tríade que me interessa muito e é muito cara para as Ciências Humanas, porque nos permite compreender processos e fenômenos do dia a dia. Eu me sinto muito inspirada, enquanto professora, pelo conceito de Amefricanidade, que é um convite para descortinar o eurocentrismo, descolonizar o nosso currículo e pensar a escola que temos no Brasil, as práticas da sala de aula e a escola que queremos ser.” Léa Camargo, formadora de referência e especialista da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas do iungo 

Somos atravessados pelos encontros que vivemos, pelas professoras e professores que acreditaram em nós e pelas referências que ampliaram nossa forma de enxergar o mundo.

Fortalecer a educação pública também passa por fortalecer esses encontros. Quando ampliamos os repertórios de quem ensina, ampliamos também as possibilidades de aprendizagem de milhões de estudantes e construímos uma escola comprometida com a equidade  e mais preparada para os desafios do presente.

Quer ampliar ainda mais o seu repertório de referências negras na educação? Conheça outros educadores e intelectuais negros que seguem inspirando gerações de professores que buscam construir uma educação mais plural. 

 

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