Como construir uma formação continuada que dialogue, de fato, com as necessidades dos professores e com a realidade das escolas? Em São Luís (MA), essa pergunta tem orientado a parceria entre o Instituto iungo e a Secretaria Municipal de Educação (SEMED) na implementação do programa Projetos de Vida na Escola: Cartografias Fundamentais.

Sua abordagem articula Educação Integral, Educação para as Relações Étnico-Raciais e multiletramentos. Essa última perspectiva considera a diversidade de culturas, linguagens e formas de interação presentes na vida dos estudantes.
No município de São Luís, o iungo e a SEMED desenvolvem esse percurso desde março de 2026. A parceria considera as características do território e os conhecimentos dos profissionais da rede de ensino. Essa construção conjunta orienta as escolhas formativas e permite que o programa ganhe contornos próprios no município.
Construir com a rede de ensino, não apenas para ela
Na prática, a parceria parte da escuta das equipes da SEMED e do reconhecimento dos conhecimentos, das experiências e da autonomia da rede de ensino. Em São Luís, isso aparece desde o desenho do percurso formativo. A proposta foi construída a partir de um estudo aprofundado do currículo municipal e da Política de Formação Continuada da Secretaria. Essa análise orientou a escolha dos componentes de Arte, Filosofia, Geografia e História para o trabalho transversal com projetos de vida. As formações também foram organizadas prioritariamente de forma presencial, em diálogo com a política formativa do município.
Suziane Regina Cunha de Moura, integrante da Equipe de Coordenação do Centro Avançado de Apoio à Educação (CAAED), da SEMED São Luís, destaca justamente esse aspecto da parceria. “As equipes do Instituto iungo observam, estudam, dialogam e compartilham conosco suas percepções e propostas. A partir desse processo, temos construído e tomado decisões conjuntamente, considerando os diferentes conhecimentos e experiências envolvidos.”
Do planejamento às formações: como a parceria ganha contornos próprios

A customização também aparece no conteúdo dos encontros com os professores. Em uma formação de Arte, por exemplo, o currículo da rede orientou as atividades. O encontro incorporou a obra da artista maranhense Gê Viana como referência para o trabalho com os estudantes. Durante o encontro, os professores elaboraram situações de aprendizagem para diferentes anos do Ensino Fundamental. O exercício propôs articular os conhecimentos de Arte aos projetos de vida dos estudantes.
Renata Lazzarini Monaco, articuladora do Instituto iungo junto à SEMED São Luís, destaca que a parceria envolve compreender o que a rede já faz, quais necessidades formativas estão presentes, quais desafios aparecem durante o percurso e o que precisa ser revisto para que a proposta permaneça conectada à realidade local.
“O que fazemos não é pegar uma formação pronta e adaptar alguns elementos. A gente parte do que a rede de ensino já construiu, das escolhas que ela já fez e do que os profissionais nos trazem ao longo do percurso. Isso muda o desenho da formação, os exemplos que usamos, as referências que levamos e até os caminhos que seguimos depois de cada encontro.”
Essa forma de atuação expressa um princípio do iungo: fazer junto, valorizando o que já existe no território. Ao trabalhar com as equipes das secretarias e os professores, o Instituto busca apoiar o aprimoramento e a continuidade das ações formativas que a própria rede conduz.
A finalidade é contribuir para que esse trabalho se reflita nas práticas pedagógicas e amplie as oportunidades de aprendizagem e desenvolvimento de todos os estudantes.
Da formação à sala de aula: quando a parceria ganha forma
Quando começou a participar do Cartografias Fundamentais, Katiuse Mendes Lopes, professora de Geografia da Escola Professora Maria Thereza Cabral, tinha uma preocupação: como incorporar os projetos de vida a uma rotina de trabalho que já reunia tantas demandas? A escola fica na zona rural de São Luís. Ao longo das formações, Katiuse passou a identificar possibilidades de integrar os projetos de vida ao ensino de Geografia. Com isso, aproximou os conteúdos curriculares das trajetórias, dos interesses e das perspectivas dos estudantes.
“Na minha primeira formação, uma das questões que coloquei foi justamente essa: projetos de vida seriam mais um elemento a ser trabalhado? Aos poucos, essa ideia foi sendo desconstruída. Passei a perceber que é possível trazer essa perspectiva para os próprios objetos de conhecimento. As oficinas também ajudam muito nesse processo, porque nos permitem pensar, junto com outros professores, como fazer essa articulação”, conta Katiuse.
Projetos de Vida na prática: o território como ponto de partida

Esse novo olhar começou a aparecer também na condução das aulas. Ao trabalhar temas da Geografia, Katiuse passou a criar mais espaço para que os estudantes relacionassem os conteúdos às próprias vivências no território e às formas como interpretam o mundo. Em uma atividade sobre globalização, por exemplo, a turma discutiu mudanças percebidas na comunidade, espaços de convivência e referências culturais trazidas pelos próprios alunos.
“A gente deixa de ocupar apenas o lugar de quem detém o saber e passa também a escutar, investigar e motivar. É uma construção conjunta, que pode ajudar o estudante a se desenvolver, ampliar suas possibilidades e pensar caminhos para a própria vida”, afirma a professora da capital maranhense.
O relato de Katiuse mostra uma possibilidade de trabalhar projetos de vida de forma transversal: partir de um conteúdo curricular e convidar os estudantes a relacioná-lo às próprias experiências. Assim, eles encontram espaço para reconhecer o território onde vivem e refletir sobre seus interesses, suas relações e suas perspectivas de futuro.
É também nesse movimento que a parceria entre o iungo e a SEMED São Luís ganha forma dentro da escola. O percurso desenvolvido com a Secretaria chega aos professores. Eles reelaboram as propostas a partir de seus conhecimentos, das características de suas turmas e das realidades que encontram em sala de aula.
Quando a formação continuada caminha sob essa perspectiva, projetos de vida deixam de aparecer como algo separado e passam a atravessar as relações, os conteúdos e as aprendizagens construídas com os estudantes.
Quer conhecer mais dessa história? No Instagram do iungo, a professora Katiuse conta como o programa Projetos de Vida na Escola: Cartografias Fundamentais tem contribuído para sua prática e para o trabalho com projetos de vida em sala de aula.