Projeto de Vida e Educação em Valores, por Valéria Arantes

A Profª. Drª. Valéria Arantes conta sua aproximação com o conceito, fala da importância de se promover o trabalho com Projeto de Vida na escola e, ainda, relata como docentes e famílias podem colaborar para a construção de Projetos de Vida éticos.
O que seria, afinal, uma definição consistente para Projeto de Vida?

Vou tomar a liberdade de definir o conceito a partir da minha trajetória acadêmica. Sempre trabalhei no campo da moralidade, buscando entender as complexas relações entre inteligência e afetividade no funcionamento psíquico. Aproximei-me do conceito de Projeto de Vida justamente por essa via. Em 2008, como professora visitante na Universidade de Stanford (Califórnia – EUA), acompanhei de perto o trabalho do professor William Damon, que, por sua vez, aproximou-se do conceito de Projeto de Vida quando constatou, em suas pesquisas, a falta de “rumo” e de compromisso com papéis que definem a vida adulta, apresentada por muitos jovens americanos ao falarem sobre suas projeções futuras. Se pensarmos nos jovens brasileiros, essa “falta de rumo” e de compromisso, que trazem consigo a ideia de um “vazio existencial”, parece ser fonte de preocupação de muitos pais, educadores e profissionais da educação de modo geral. No senso comum, esses jovens encontram-se no que denominamos, no Brasil, “nem nem”: nem estudam nem trabalham. E poderíamos acrescentar: nem sabem o que querem, nem apresentam desejos, nem aspirações, nem metas. A partir de suas diversas pesquisas, William Damon define Projeto de Vida como uma “intenção estável e generalizada de alcançar algo que ao mesmo tempo é significativo para o eu e que gera consequências no mundo além do eu”. Tal conceito sofreu grande influência do trabalho do psiquiatra austríaco Viktor Frankl. Em sua obra, de 1946, Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração, Frankl descreve suas experiências durante os três anos que viveu em vários campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, quando sofreu privações e perdas de toda ordem. Apresentando dados sobre os prisioneiros do Holocausto nazista, Frankl postula que o fato de ele ter dado um sentido a essas suas pessoas foi o que o manteve vivo. Com isso, ele defendeu que as pessoas que, em momentos de privações, conseguiram vislumbrar para além do “si mesmo” e que aproveitaram a experiência para impactar o mundo tiveram mais chance de sobrevivência do que aquelas que enfrentaram a situação dos campos de concentração com o único objetivo de sobreviver. Partindo daí, o professor Damon desenvolveu muitas pesquisas com os jovens americanos e percebeu que o conceito de Projeto de Vida incorpora a preocupação central de conseguir se guiar, servindo como uma bússola que orienta as pessoas durante sua formação e seu desenvolvimento na busca de um sentido de vida. Como dizia Nietzsche: “quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como. E isso nos conduz, no campo da educação, para a importância de se questionar sobre o sentido da vida. Afinal, quem não identifica um “porquê” para a própria vida perde a maior força motivadora do ser humano: a busca do sentido da vida.

Em geral, quando as pessoas pensam em Projeto de Vida, elas já o associam à dimensão profissional. Mas deve-se considerar também as dimensões pessoal e social. Você pode comentar essas dimensões do Projeto de Vida considerando que, como dito por você, ele serve como uma bússola?

Antes de discorrer sobre essas três dimensões, pessoal, social e profissional, eu gostaria de considerar pelo menos três aspectos constituintes do Projeto de Vida trazidos por Damon, que, juntos, deixam mais clara a metáfora da bússola. O primeiro aspecto está relacionado à estabilidade, tomada em contraposição à efemeridade. Trata-se de uma estabilidade ao longo de um certo período, ainda que possa sofrer alterações e ajustes. O segundo aspecto diz respeito à ideia de o Projeto de Vida trazer objetivos de longo prazo para a vida do sujeito, delineando um rumo à sua existência e articulando várias metas concretas. Por fim, o terceiro aspecto se vincula à ideia de o projeto ser organizador e motivador da vida das pessoas, especialmente no sentido de orientar suas decisões e de exigir seu compromisso por meio de atividades necessárias para sua realização. Esses três aspectos justificam a metáfora da bússola, ilustrando como, durante o período de formação, os Projetos de Vida podem ser orientadores dos sujeitos na busca por um sentido de vida.

Posto isso, e consciente do quão difícil é compreender o processo de construção dos Projetos de Vida,  no livro Projetos de Vida: Fundamentos Psicológicos, Éticos e Práticas Educacionais, trazemos uma primeira parte conceitual em que reiteramos a importância de se considerar as três dimensões do Projeto de Vida, pessoal, social e profissional, e isso tem um motivo muito relevante para nós. Ocorre que muitos documentos na área de Educação têm focado única e exclusivamente os projetos profissionais dos estudantes, vislumbrando sua opção profissional e sua colocação no mercado de trabalho. Mas essa dimensão não pode e não deve, em nossa opinião, ser a única a ser considerada e, menos ainda, ser dissociada de sua repercussão na vida pessoal e social dos indivíduos. Além disso, não existe esse dissociação do ponto de vista do funcionamento psíquico humano. Quando defendemos a formação integral, estamos nos referindo a uma formação que contemple conjuntamente os aspectos cognitivos, afetivos, sociais, culturais e valorativos na organização e na construção de seus projetos de vida. Nesse sentido, não dá para imaginar a formação profissional separada da formação pessoal ou social. O sujeito é um todo coeso e, se estamos falando de algo que o move, é preciso admitir que o significado pessoal que ele atribui aos diferentes componentes de sua vida, bem como a centralidade que tais componentes psicológicos ocupam (ou não) na constituição de sua identidade, impactarão seu modo de viver, pautado por valores e por padrões éticos. O professor Nilson Machado, meu colega da Faculdade de Educação e um grande amigo, tem uma frase que me parece fantástica para ilustrar essa discussão: “O desejo é a antessala do projeto”. Sem desejo, não há projeto. Dito de outra forma, em uma leitura complexa do psiquismo humano, cumpre-nos defender que sentimentos e emoções exercem um papel muito relevante no processo motivacional e estruturante dos projetos de vida pessoal, social e profissional, que são indissociáveis no psiquismo humano. Não existe razão alguma para se pensar que o foco na dimensão profissional seja mais importante para a formação dos nossos estudantes ou a melhor forma de se construir um projeto de vida com sentido ético. A superação do “vazio existencial”, ao qual nos referimos anteriormente, ou seja, a busca pelo “sentido da vida” envolve a complexidade dos processos psíquicos e suas diferentes dimensões.

Como apresentar ao aluno que tem poucas oportunidades sociais, econômicas e culturais uma perspectiva positiva acerca do planejamento de futuro?

Essa pergunta me remete a um dado que li recentemente no jornal: atualmente, temos o dobro de mortes por suicídio do que por guerras ou atentados no mundo todo. Curiosamente, esse número se concentra nos países mais ricos e isso nos conduz a uma pergunta. Como desprezar a vida diante de tanta “riqueza”? Essa é uma questão para ponderarmos que a riqueza não é uma condição para se ter um propósito.

Apesar disso, é importante registrar que trabalhando e desenvolvendo, há anos, projetos de pesquisa em escolas públicas da periferia de São Paulo e em outros estados, não devemos ser ingênuos a ponto de achar que todos têm as mesmas condições para construir um projeto de vida. As diferenças social, econômica, cultural etc. entre alunos das escolas da periferia e os de instituições privadas, por exemplo, são enormes! Alguns trabalhos desenvolvidos pelo nosso grupo de pesquisas têm nos instigado a pensar sobre essa questão. Um deles, que merece ser mencionado aqui, a dissertação de Mestrado desenvolvida por Daniela Haertel com 90 jovens de periferia, chamou a atenção para o fato de a grande maioria dos participantes, aproximadamente 80% deles, ter focado o discurso basicamente no projeto profissional. Durante as entrevistas, eles foram questionados sobre a razão de mencionarem estritamente suas aspirações ocupacionais e a essência das respostas era uma só: eles viam no trabalho a única forma de superar todas as lacunas que a vida lhes impôs. Isso nos obriga a desconstruir aquela ideia, muito recorrente, de que o jovem pobre ou menos favorecido não tem projeto ou não tem ideia sobre seu futuro. Esses resultados nos fazem considerar que, muitas vezes, é na “ausência” e a “carência” que o jovem se fortalece para buscar um sentido em sua vida. Ora, se temos um ponto de partida para nossas aspirações, é certo também que temos de lidar com a incerteza e com o acaso, os quais não podem nos paralisar. paralisar. Pelo contrário, eles podem — e isso é o desejável para o plano desenvolvimento — nos mobilizar para a busca de caminhos mais eficientes. Isso nos conduz, também, a defender a necessidade de considerarmos as diferenças, singularidades e idiossincrasias de nossos jovens. Eu não tenho dois alunos iguais. Somente considerando a diferença, serei capaz de identificar quais são os desejos e os sonhos de cada um deles, suas dificuldades, suas limitações, seus potenciais etc. para, então, orientá-los adequadamente na construção de seus Projetos de Vida.

A partir de que idade ou ano devemos iniciar o Projeto de Vida no currículo escolar?

Eu vou defender que, desde os Anos Iniciais, deve-se trabalhar com esse conceito. Isso porque, para mim, quando falamos em Projeto de Vida, estamos falando de moralidade e, claro, de educação em valores. Ora, para se construir um Projeto de Vida, eu preciso ter consciência do que eu gosto e de meus desejos. Às vezes, lamentavelmente, uma pessoa passa a vida inteira sem saber exatamente o que lhe dá prazer e o que dá sentido à sua vida. Estou me referindo à dimensão do autoconhecimento e a um conjunto de processos de autorregulação que permite ao sujeito dirigir a própria vida, o que requer reflexão e aprendizagem. O autoconhecimento é apenas uma das diversas dimensões que devem ser consideradas no trabalho com Projetos de Vida. Além disso, outras tantas são igualmente relevantes, como a empatia, o autocuidado, a cooperação, a responsabilidade, a resolução de conflitos, a autoestima etc. Todos esses aspectos nos aproximam do conceito de educação socioemocional, tão presente na BNCC.

Respondendo mais objetivamente à sua pergunta, o trabalho com Projetos de Vida costuma ser muito enfatizado na adolescência porque esse é, de fato, o momento mais propício para se trabalhar diretamente essa temática. Entretanto, ao longo da vida, esse projeto deve ser visto como um processo que requer várias aprendizagens. Ora, não se trata de perguntar a uma criança de 6 anos “qual é o seu projeto de vida?”, mas, sim, de se trabalhar aquelas dimensões da educação em valores que favorecem a elaboração e a consolidação de Projetos de Vida com sentido ético. É claro que, para cada etapa — Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior — formas apropriadas serão buscadas formas apropriadas para o referido trabalho. Nos últimos anos, tenho discutido essa temática com meus alunos da graduação e da pós-graduação, e eles me agradecem pela oportunidade. Enfim, se tomarmos a construção de Projetos de Vida, no sentido que está na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), como possibilidade de fomentar nos estudantes escolhas de estilos de vida saudáveis e sustentáveis, penso que, como profissionais da Educação, devemos assumi-lo como cerne de nosso trabalho ao longo da formação e da vida de nossos alunos.

O que desenvolver, desde o Ensino Fundamental, para subsidiar os estudantes na construção de seus Projetos de Vida?

O Projeto de Vida tem uma íntima relação com a moral, — porque construir um Projeto de Vida é escolher como se deseja viver — que é a essência da moralidade. A preocupação maior da escola deve ser: que tipo de intervenção se deve fazer para fortalecer a construção de Projetos de Vida com sentido ético? Nesse processo, o trabalho com sentimentos é fundamental e, portanto, deve tomar os afetos e os sentimentos como objetos de conhecimento. Para mim, assim como se aprende matemática, por exemplo, precisamos aprender a lidar com os próprios sentimentos e afetos. Eis a dimensão do autoconhecimento e do autocuidado que exige dos educadores a busca por caminhos que incorporem ao cotidiano escolar conteúdos relacionados à vida pessoal e à dimensão afetiva. Somado a isso, para favorecer a construção de Projetos de Vida éticos, a instituição escolar deve se constituir como um espaço para relações democráticas, pautadas na confiança, no respeito, na responsabilidade e na liberdade de expressão.

Outro aspecto fundamental para se trabalhar os Projetos de Vida diz respeito à ideia de engajamento. Como engajar os alunos em Projetos de Vida com sentido ético? Esse envolvimento é da ordem do desejo, mas se situa também na dimensão da responsabilidade que o sujeito precisa ter com a sociedade. Como fazê-lo? Apostamos na aprendizagem baseada em problemas e por projetos, bem como outras metodologias ativas que coloquem o estudante como protagonista do processo de conhecimento. O Projeto de Vida, assim como o conhecimento de modo geral, requer um processo inevitavelmente pessoal e intransferível. Esse caminho nos parece promissor para a construção de projetos pautados por valores coletivos, colaborativos e éticos.

Como lidar com os empecilhos que vão surgindo na trajetória? É possível explorar conjuntamente os conceitos de Projeto de Vida e de resiliência?

Vou responder a esta pergunta pensando um pouco no momento em que estamos vivendo. Quando falamos de Projeto de Vida, como eu já disse, não significa algo imutável. Você tem de fazer adaptações, buscar mudanças, transformar uma situação que não era esperada, mudar a rota, resolver problemas que surgem e superar os obstáculos encontrados, cortar o caminho, inventar novas alternativas de percurso e se reinventar nesse processo. Frankl tem um argumento que, para mim, é uma verdadeira obra-prima, sobretudo para o momento atual: “Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. Quando a situação não puder ser transformada, transforme-se”. Hoje, lendo os jornais, vi o depoimento do infectologista David Uip, que teve alta da UTI depois de ter contraído a Covid, no qual ele dizia mais ou menos o seguinte: “eu tive de me reinventar, pois me deparei com os limites da vida”. Acho que, depois do que estamos vivendo por conta da pandemia, nunca mais seremos os mesmos. É preciso nos transformar diante das dificuldades e dos obstáculos encontrados, bem como identificar as etapas que nos conduzem ao projeto vislumbrado. Nesse processo, não se trata de projetos nobres ou não. Se você vislumbra ser um grande cientista e descobrir a vacina que vai curar a humanidade ou mesmo constituir uma família, ambos os projetos, igualmente legítimos, lhe trarão muitas dificuldades e muitos obstáculos consigo. Quando eu falei da ideia de se iniciar um trabalho com o Projeto de Vida desde as séries iniciais, referia-me justamente à necessidade de se construir aprendizagens nesse processo: eu vou ter frustrações, vou ter de superá-las e enfrentá-las, vou ter de buscar novas estratégias e descartar outras, vou ter de ser criativo e comunicativo etc. Tudo isso se aprende! Ou seja, eu vou ter de fazer jus à maior função da escola, que é ensinar as pessoas a pensar. Qual é a minha capacidade de criar, de transformar e de repensar a vida? Eu acho que o caminho é este. A experiência de David Uip o fez ter consciência disso, quando ele afirmou: — “eu tive de me reinventar”. E, muitas vezes, o que precisamos é nos reinventar para alcançarmos nosso projeto. E isso requer aprendizagem, aprendizagens, várias aprendizagens.

Quais os desafios de se pensar Projeto de Vida em relação a esse momento atual de pandemia?

Em primeiro lugar, vejamos como esse momento tão difícil pode contribuir para repensarmos o conceito do Projeto de Vida. De um modo ou de outro, o mundo jamais será igual depois de tudo o que estamos vivendo. O mundo parou, os carros estão nas garagens, as viagens foram canceladas e as crianças estão dentro de casa. E isso exige que repensemos uma série de coisas. É preciso repensar o nosso modelo de economia e de política, o planeta e o ser humano.

Recentemente, li um relatório no qual constava a informação de que 1% de toda a população mundial concentra mais riqueza do que os outros 99%. E isso não me parece “normal”. Não me parece aceitável, pois é uma realidade intolerável e inadmissível. Ao mesmo tempo, nunca tivemos tanta tecnologia, produção de conhecimento, informação e mecanismos de divulgação. Parece-me que, ao longo da história, nós fomos perdendo um pouco da dignidade humana e naturalizando essas desigualdades. Na condição de mãe e de educadora, como posso sugerir à minha filha ou aos meus alunos que se adaptem a um mundo que é tão injusto e desigual? Muitas vezes, inconsciente e implicitamente, o que estamos sugerindo às futuras gerações é uma adaptação a esse mundo, pensando nas formas de “sobrevivência” em meio ao caos em que vivemos. Por exemplo, existe uma demanda enorme para que as futuras gerações atendam ao mercado de trabalho. Mas que mercado é esse e quais princípios o regem?

Tivemos uma história repleta de boas músicas, poesias, esculturas, quadros maravilhosos, romances fantásticos, isso porque o ser humano tem necessidade de liberdade, capacidade de criar e amar, o que diz respeito à dimensão da ética. E qual é a íntima relação disso com o Projeto de Vida? Temos de buscar o que dá sentido à nossa vida e à nossa existência. Esse deve ser o nosso foco como professores, pais e profissionais da Educação. Precisamos ajudar os nossos jovens a descobrirem o que os leva ao engajamento e à excelência, mas não no sentido de ser o melhor, de ganhar, de ser competitivo ou de ocupar um lugar no mercado de trabalho. Não é esse o modelo de sociedade que nós precisamos. Esse modelo individualista não cabe mais. A pandemia tem nos mostrado que precisamos de Projetos de Vida pautados em valores coletivos e colaborativos. Veja só: não adianta eu comprar todo o estoque de álcool em gel para me proteger. Para que eu esteja protegido, é necessário que o outro se proteja também. Simples assim. E isso nos diz muito. Parece-me muito simbólico.

Pensemos, agora, em como inserir os Projetos de Vida no cotidiano escolar nesse momento. O isolamento social não nos impede de promover práticas escolares que vislumbrem a construção de Projetos de Vida. Ora, se a pandemia nos sinaliza que é preciso um novo modelo de economia e de política, logo, está clara que também é necessário buscar um novo modelo de educação. Interessa-nos um modelo que se comprometa com o processo de construção de Projetos de Vida de seus estudantes, oferecendo-lhes oportunidades para refletirem e discutirem suas aspirações, suas motivações, suas necessidades, seus interesses, seus pensamentos, seus sentimentos etc., e sobre como todos esses aspectos impactam o mundo e a sociedade. Sem dúvida alguma, temos de ser criativos para investir nessa empreitada.

Como trabalhar remotamente a disciplina Projeto de Vida?

Para começar, precisamos romper com os preconceitos que vêm recheados de medo e de resistência. Muitas pessoas têm receio das novas tecnologias e isso só atrapalha o processo de inovação. A esse respeito, dois aspectos merecem ser considerados. Em primeiro lugar, do ponto de vista epistemológico, vale perguntar: como se dá o conhecimento? Se eu acredito que é uma construção, eu preciso colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem, tirando-o do lugar passivo em que ele muito frequentemente se encontra. O estudante tem de ser protagonista desse processo.

Diretamente relacionado a esse princípio, é preciso, em segundo lugar, questionar o papel das novas tecnologias: como elas podem favorecer esse processo de ensino-aprendizagem, incentivando a colaboração, a cooperação e os trabalhos em equipe? Superando a estrita interação professor-aluno, é preciso trabalhar em pequenos grupos, ampliando as relações em sala de aula. Se o professor sai do centro, ele continua coordenando o processo, mas dá voz aos estudantes, orienta-os sobre como estudar, como pesquisar, como produzir conhecimento. Isso não se faz só fisicamente, em sala de aula, mas também quando se leva em consideração as muitas ferramentas que viabilizam esse trabalho descentralizado. A tecnologia tem de estar a serviço de um projeto maior e bem elaborado, bem como ser um projeto compatível com as demandas ou práticas de nosso mundo e, certamente, comprometido com a busca de um sentido de vida justo, feliz e democrático.

O que pensa sobre trabalhar os Projetos de Vida de professores? Quais seriam os focos essenciais?

Estamos iniciando, com apoio do iungo, uma pesquisa grande, entrevistando professores do Brasil inteiro. Temos poucos dados sobre Projetos de Vida de professores e o pouco que temos é realmente preocupante. Um deles é sobre a baixa procura por cursos de formação de professores. O desinteresse dos profissionais da Educação, provavelmente, está associado ao baixo reconhecimento social, aos salários reduzidos e às precárias condições de trabalho. Um estudo coordenado atualmente pela professora Viviane Pinheiro, também da USP, aponta que, somado a esse desinteresse,os professores entrevistados não trazem a Educação como central em seu projeto de vida, apesar de apontarem a profissão como importante. O que comparece como central, na maioria das respostas, é a remuneração que advém da profissão.

Que formação oferecer para que esses professores exerçam sua profissão com excelência, de maneira ética e engajada? Como assumir a profissão docente plenamente, e não somente como forma de remuneração? Esperamos, sinceramente, que essa pesquisa possa subsidiar caminhos promissores na busca por alternativas de envolvimento e por estratégias de constante capacitação. Afinal, como formar professores capazes, competentes e compromissados com a construção de Projetos de Vida éticos? Essa é nossa meta e nosso objetivo atuais. Inspirados no trabalho do psicólogo Howard Gardner, apostamos na excelência, na ética e no engajamento como princípios norteadores do trabalho docente. Não dá mais para perpetuarmos, na Educação, a máxima “faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço”. Como professor ou professora, eu tenho de ser uma referência, por isso, eu tenho de ter esse sentido ético, esse compromisso e essa responsabilidade. Eu tenho de ser referência para os meus alunos, ou seja, uma fonte de inspiração para eles. E, para isso, preciso estar plenamente engajado no que faço.

Boa parte dos estudantes não conversa com os pais sobre o futuro. Não seria o caso de trabalhar também com os pais sobre o assunto?

Historicamente, a relação entre a família e a escola é tensa; ainda não acertamos a mão. A educação é um bem público, no entanto, quando você olha para a escola como prestadora de serviço para o seu filho, há uma ruptura nessa parceria. A ideia de parceria entre pais e escola na construção do Projeto de Vida me parece fundamental, mas cuidado, pois, se a escola convocar os pais para dar a eles lições de como educar seu filho, isso não vai dar muito certo. Por quê? Porque, considerando os valores de cada família, não sabemos exatamente como os pais devem educar. Estamos falando do desafio de atender à diversidade, todavia, é necessário também levar em conta que a escola também não tem essa experiência e essa clareza de como trabalhar com os Projetos de Vida. Como podemos impor isso aos pais? É a mesma coisa de o pai querer impor à escola seu projeto pedagógico. Faço essa reflexão com o intuito claro de defender, veementemente, uma parceria que seja legítima. Então, pergunto: como nossas crianças e jovens podem se beneficiar dos conhecimentos de pais e professores na construção de Projetos de Vida que sejam genuinamente de seu interesse? Tudo que nós, educadores, fazemos conta, seja como pais ou como docentes. Mas tudo o que nós fazemos pode e deve ser revisto, sem medo de admitir que erramos. E, muitas vezes, as crianças e os jovens precisam amadurecer para entender até o que pode ser relevante. Assim como os professores, os pais devem se questionar se fazem boas perguntas a seus filhos, em conversas que os ajudem a pensar sobre o que querem da vida e como querem viver. Isso pressupõe uma escuta elaborada, que permita intervir de uma forma mais competente, pois, quando você faz uma intervenção de forma competente, ela impacta a forma de pensar do outro. É isso que pode, efetivamente, favorecer a construção do Projeto de Vida ético.

Entrevista transcrita das duas partes da live “iungo Convida: Projetos de Vida”, realizadas nos dias 6 e 20 de abril de 2020.

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